
Dor e Cuidados Paliativos

Fernanda Bono Fukushima
Por que cuidados paliativos?
Quem já me conhece do Instagram sabe que a maior parte das minhas publicações é direcionada ao tratamento da dor. No entanto, insisto em incluir cuidados paliativos na minha titulação.
Isso se deve a alguns motivos: em primeiro lugar, possuo o título de especialista em cuidados paliativos (assim como também sou titulada especialista em dor e em anestesiologia, embora não exerça mais minhas atividades como anestesiologista há algum tempo).
No entanto, entendo que o motivo de os cuidados paliativos estarem incluídos nesse título é que o estudo e o trabalho dentro dos cuidados paliativos mudaram a minha maneira de ver a dor.
O estudo do sofrimento humano, com foco na melhora da qualidade de vida, é uma das questões centrais dos cuidados paliativos, e isso também são as minhas prioridades quando atendo um paciente portador de uma síndrome dolorosa crônica.
Algumas dessas síndromes não possuem uma cura rápida ou fácil (quem tem dor crônica sabe bem das tantas recaídas, idas e vindas...), e os cuidados paliativos trazem o olhar para a qualidade de vida, para se permitir dançar na chuva e viver da forma mais plena possível, dentro das limitações de uma doença crônica.
Outra questão dos cuidados paliativos que mudou a minha prática é ter a maravilhosa oportunidade de estar com pessoas que estão vivendo o entardecer da vida, aquele momento dourado onde as cores mudam, assim como as prioridades; cada segundo importa e deve ser vivido em sua plenitude. Isso não deveria se restringir àqueles que estão no entardecer da vida; todos deveriam ter a oportunidade de viver plenamente, saborear a poesia do mundo, sem adiar a felicidade, o sorriso, os encontros para depois
A dor
mas o que é isso?
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A dor é por definição uma experiência individual
A dor é uma resposta do nosso organismo à uma ameaça e por isso tem uma função muito especial: nos proteger. O problema é que essa proteção acontece tanto para algo que fere nosso corpo como também para algo que potencialmente pode ferir!
(quando a gente fecha os olhos no momento da picada de uma agulha, por exemplo, parece que doi menos do que quando ficamos "assistindo" a injeção ser administrada!)
Quando essa dor se mantém por muito tempo no nosso corpo, fica difícil "fechar os olhos" para o que está acontecendo, e nosso cérebro, para nos proteger, começa a fazer correlações, algumas ligadas diretamente ao problema inicial, outras nem tanto. Uma vez que nosso corpo entende determinada coisa como uma ameaça, ou conecta determinada coisa à dor que sentimos, o alarme é ligado e a dor se agrava.
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Então parte da minha dor é da minha cabeça?
O cérebro está na nossa "cabeça" e está está conectada ao nosso corpo. A nossa "cabeça" das parte do que somos. Tendo dito isso afirmo: toda dor é da cabeça!
Mesmo a dor de um pisão no pé?
Mesmo a dor de um pisão no pé!
O corpo recebe o estímulo "ameaçador", o cérebro vai interpretar esse estímulo e fazer com que ele nos paralise ou que sigamos em frente, a depender da potencial "ameaça" que esse estímulo representa.
(quem nunca percebeu, em uma festa chata, que o sapato incomoda mais! ou o contrário: quando estamos nos divertindo parece que os incômodos nem aparecem, ou são melhor tolerados?)
Outra questão importante é que o nosso cérebro vai ter dificuldade em fazer bem duas coisas ao mesmo tempo. Dessa forma, se estamos com dor de cabeça e aparece alguém muito chato para conversar, essa dor de cabeça vai piorar e quando nos distraímos com algo, às vezes conseguimos esquecer da dor por algumas horinhas!